Quando memórias são doces

Posted on by GILBERTO DE MARTINO

Não me lembro de uma única vez em que minha tia não me oferecera algo gostoso para comer quando a visitava. Era uma doceira caprichosa e criativa. Se oferecia uma goiabada com queijo podia ter certeza que era uma goiabada caseira e com alguma coisa especial que me explicaria com detalhes. Sua gelatina, não era apenas uma gelatina, vinha em camadas colorias, tinha frutas. Tudo era bonito de se ver e nada era trivial. Toda vez era uma surpresa doce. 

Nos meus dias de garoto aguardava com ansiedade e curiosidade minhas idas a sua casa. Que sobremesa seria desta vez? 

Podia chegar a qualquer hora e dia que fosse, sempre havia algo gostoso para me oferecer. Era recebido com festa, com elogios. Era um ritual mágico de palavras seguido de seus doces, que tinha que provar e, obrigatoriamente, repetir. 

Acho que um certo dia a peguei meio desprevenida, mas muito temporariamente, pois ela logo se arrumou. Escutei bem baixinho que mandava uma de minhas primas a sorveteria comprar picolé de côco. De repente me chamou à cozinha para tomar um frapé de côco recém surgido. Não esqueci porque foi o meu primeiro frapê. Foi lá que me iniciei no mundo dos pães de ló, bolos, compotas, brigadeiros, fios de ovos. Sim, o repertório era sempre calórico e o cardápio mellitus por excelência. Ainda bem que os tempos eram outros e os doces não eram condenados.

Cresci entre uma visita e outra, cada vez mais espaçadas.

Meus filhos quase não a conheceram direito. Eram pequenos, mas eu os levei para visita-la em 2 ou 3 ocasiões. Lembro de haver tentado criar toda aquela expectativa da história de Joaozinho e Maria, sem a bruxa, obviamente. Era um pouco desse encantamento da minha infância que procurava que contagiasse meus filhos.

Sempre me senti bem vindo naquela casa e assim abastecia minha gula de doces e de fantasias. 

Bom ter memórias assim. 

Memórias de doces. 

Memórias doces

Doces memórias.

Jardim