Companheiros, irmãos e segredos

Posted on by GILBERTO DE MARTINO

Do banheiro vinha um tititi danado da conversa alegre entre os dois irmãos. O mais velho estava ensinando uma música para a irmã, que escutava atenta e repetida com capricho.

Irmãos

Irmãos

- A janelinha abre quando o sola nasce... A janelinha fecha quando o sol se põe ...

Ou algo assim, era  que pai escutava da cozinha.

Era uma cena digna de um filme de Fellini: o irmão na privada, que nessas horas tinha um adaptador de assento azul apropriado para a criança não cair dentro. A menina sentadinha no penico rosa no chão, em frente ao irmão.

Era assim quase todas as noites. Tinha vez que os dois sentavam um ao lado do outro, cada um no seu penico, e ficavam vendo revistinhas. 

Ficavam assim os dois por longo tempo, tagarelando, lendo e comentando um com o outro, como gente grande. Pareciam grandes companheiros mesmo. O pai tinha o maior gosto em vê-los assim. Escutava a conversa dos acontecimentos da escola, das músicas que haviam aprendido, de algum colega chato. qualquer coisa valia. Era uma intimidade que nunca tivera na vida e ficava orgulhoso e contente ao mesmo tempo em ver que seus filhos estavam tendo essa experiência ali mesmo.

Eles os deixava assim por algum tempo sozinhos, mesmo porque os dois conseguiam poluir aquele banheiro de um modo incrível. Era melhor deixar dissipar a atmosfera por um tempo e assim ele ia guardando as compras do supermercado e ficava se deliciando com a conversa deles ao longe.

Os dois pequenos pareciam não ter segredos entre si. Era bonito ver a amizade deles. Dava gosto. O pai prometeu a si mesmo que nunca haveria segredos naquela sua família. Tudo seria como aquela confiança e parceria entre os dois. Não deixaria que nenhum filho tivesse o peso de guardar segredos. Ele mesmo tomaria a iniciativa de eliminar segredos e manteria a confiança de seus queridos. Teriam que aprender a dividir as dificuldades da família com coragem e solidariedade. Aprenderiam a distingir privacidade, respeitariam a individualidade e exercitariam a tolerância para uma vida de amor e amizade.

Enquanto assim divagava na sua filosofia vespertina, ia cuidando do jantar. Sopa de caldo de galinha com macarrãozinho. Todos gostavam disso.

Naqueles últimos tempos o ritmo doméstico se repetia de modo simples e previsível, mas nem por isso era enfadonho ou tedioso. Na verdade adorava essa vidinha. Só se daria conta disso muito tempo mais tarde.

O pai adorava a paz daquela casa e enquanto os dois ficam no banheiro, ele cuidava do seu terceiro turno.

Pois é, era assim naqueles tempos: os dois pequenos iam juntos para o banheiro do apartamento e ficavam tagarelando sem parar por um longo tempo, até quando solemente gritavam

- Pai, já acabeeeei... aaacaabeeeeiiiii...

E lá ia ele.

Depois, jantavam e iam para a cama.

Teria mais no dia seguinte.