Quando memórias são doces

Posted on by GILBERTO DE MARTINO

Não me lembro de uma única vez em que minha tia não me oferecera algo gostoso para comer quando a visitava. Era uma doceira caprichosa e criativa. Se oferecia uma goiabada com queijo podia ter certeza que era uma goiabada caseira e com alguma coisa especial que me explicaria com detalhes. Sua gelatina, não era apenas uma gelatina, vinha em camadas colorias, tinha frutas. Tudo era bonito de se ver e nada era trivial. Toda vez era uma surpresa doce.

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O Juiz

Posted on by GILBERTO DE MARTINO

O juiz

O juiz

 

O menino saiu correndo pelo campo de futebol feliz da vida. A ansiedade se misturava com orgulho que ele não conseguia esconder. Transpirava pela testa, respirava aos atropelos. Corria freneticamente. Suas bochechas vermelhas se destacavam no campo verde daquela bonita manhã de inverno. Ele queria chegar logo perto de seus amigos que estavam do outro lado do campo.

-Poxa, que campo sem fim! Meu pai aceitou ser o juiz da partida! Repetiu para si mesmo enquanto corria ofegante para outro lado.

Sim, seu pai era o juiz da partida! Que importante que ele se sentia naquele momento. Era tanto orgulho que não cabia naquele corpinho nervoso de criança. 

O pai estava lá ficando cada vez mais distante no canto oposto, enquanto os amigos aguardavam algum sinal para começar aquele jogo. Aquela criançada estava aflita fazia tempo. Aquela notícia faria o menino virar o herói da turma. 

O time adversário estava chegando ao campo e não havia nenhum adulto disponível para ser juiz da partida. Estavam todos ansiosos para arrumar um adulto que pudesse ser o juiz.

O menino acelerou nos metros finais, não via hora de contar a notícia para os amigos.

-Agora está tudo certo, disse ofegante. Meu pai resolveu a questão e vai ser o juiz. Bradou com o peito empinado de orgulho aos amigos.

Lá do outro lado, o pai estava muito constrangido porque mal entendia as regras de jogo de futebol e agora seria o juiz. Jamais fora capaz de jogar uma partida inteira na sua vida! Era o eterno goleiro reserva dos times da infância. Havia aceitado aquele posto porque viu que era o único adulto ali por perto e, olhando aquela criançada toda achou que era coisa certa a fazer. 

Não podia imaginar que o filho ficaria tão feliz com isso. Era, de certo modo,  uma surpresa desconcertante a reação admirada do filho. Ao mesmo mesmo tempo isso lhe aumentava mais sua responsabilidade de juiz da partida.

Quando viu o alívio dos meninos se deu conta que essa celebridade repentina também lhe fazia um bem danado. Sentiu o gostinho de ser o salvador da pátria por uns instantes.

Pensando assim, muniu-se de coragem para enfrentar publicamente sua ignorância.

O pai agora via a criançada correr na sua direção com a bola na mão de um deles. O filho liderava tropa, o que não era muito comum vê-lo assim com tamanha segurança de comando.

Pai filho estavam honestamente felizes. Cada um a seu modo. Cada um com seu motivo.

Era mesmo campo enorme, ficou derrepente? Pensou o pai olhando para os lados.

Aos poucos ia identificando as conversas nervosas das crianças combinando estratégias e passes. Que interessante tudo isso. Como era bom poder participar de coisas desse tipo, voltou a ter uns nove anos novamente. Só que agora era um protagonista muito discreto de um evento esportivo. Era uma novidade. 

O jogo ia começar. O outro timinho havia chegado e já estava em campo. Havia no ar o frisson danado. Camisetas coloridas saltavam de um lado para outro. O outro time parecia ser  muito bom mesmo. 

O filho foi para o gol.

Triste sina essa a da sua prole. E logo quando alguma bola ameaçava os companheiros corriam para o gol para garantir. É, durou muito pouco aquela sensação de herói do filho. Vendo isso, percebeu que sua responsabilidade havia dobrado. Ficou solidário com o moleque.

Agora era ele quem começava a suar profusamente. Olhava para todos os lados aflito. Corria para lá para cá. Tentava se recordar dos jogos vistos na televisão. Nao eram muitos, eram os das copas do mundo. Passou a atuar como se fosse um grande ator, obedecia a sua intuição, lembrava das imagens de televisão, as conversas de comentaristas chatíssimos de futebol. De vez em quando vinham também flashes de suas passagens desastrosas das  peladas da infância.. Pensava que havia apagado essas imagens da sua memória.

O jogo começou a ficar tenso. A criançada começou a reclamar. Era falta aqui, falta ali. Meu Deus! Tinha que estar atento, e não tinha a menor ideia de como conduzir aquelas confusões e usar aquele apito. Espertamente começou a distinguir aqueles que pareciam ser mais entendidos ( os que mais bronqueavam) e, disfarçadamente, atendia aos reclamos deles com a parcimônia e com aquele ar de autoridade que ele se descobriu de repente. Distribuía assim as faltas entre os times. 

Fez o jogo ir mais rápido, adiantou ou seu relógio. Mesmo assim parecia interminável aquele suplício.

Ao final, Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Ufa.

O time visitante havia ganho e os coleguinhas do filho vazaram sem muito alarde.

Efetivamente não tinha sido um grande juiz, reconheceu o pai consigo mesmo, mas tratou o filho como se vitoriosos fossem. O filho de maneira muito discreta se meu conta disso, mas muito sabiamente escondeu sua decepção, principalmente do pai. No fundo ambos estavam felizes. O jogo perdido, os erros do juiz ladrão e incompetente, o goleiro  frangueiro, tudo isso não tinha a menor importância.

O filho, com aquela diplomacia e sensibilidade sempre depois lhe caracterizariam, deu a mão para o pai e saiu orgulhoso com ele do campo.

Em um troca honesta e sincera, o pai lhe dava tapinas nas costas fantasiando as defesas inexistentes do filho-goleiro.

Contariam uma história de sucesso quando chegassem em casa. Tornariam-se cúmplices, justos e gentis um com o outro.

Nunca se esqueceriam de como era bom poder confiar em alguém tão profundamente e ter segredos entre pai e filho.

Companheiros, irmãos e segredos

Posted on by GILBERTO DE MARTINO

Do banheiro vinha um tititi danado da conversa alegre entre os dois irmãos. O mais velho estava ensinando uma música para a irmã, que escutava atenta e repetida com capricho.

Irmãos

Irmãos

- A janelinha abre quando o sola nasce... A janelinha fecha quando o sol se põe ...

Ou algo assim, era  que pai escutava da cozinha.

Era uma cena digna de um filme de Fellini: o irmão na privada, que nessas horas tinha um adaptador de assento azul apropriado para a criança não cair dentro. A menina sentadinha no penico rosa no chão, em frente ao irmão.

Era assim quase todas as noites. Tinha vez que os dois sentavam um ao lado do outro, cada um no seu penico, e ficavam vendo revistinhas. 

Ficavam assim os dois por longo tempo, tagarelando, lendo e comentando um com o outro, como gente grande. Pareciam grandes companheiros mesmo. O pai tinha o maior gosto em vê-los assim. Escutava a conversa dos acontecimentos da escola, das músicas que haviam aprendido, de algum colega chato. qualquer coisa valia. Era uma intimidade que nunca tivera na vida e ficava orgulhoso e contente ao mesmo tempo em ver que seus filhos estavam tendo essa experiência ali mesmo.

Eles os deixava assim por algum tempo sozinhos, mesmo porque os dois conseguiam poluir aquele banheiro de um modo incrível. Era melhor deixar dissipar a atmosfera por um tempo e assim ele ia guardando as compras do supermercado e ficava se deliciando com a conversa deles ao longe.

Os dois pequenos pareciam não ter segredos entre si. Era bonito ver a amizade deles. Dava gosto. O pai prometeu a si mesmo que nunca haveria segredos naquela sua família. Tudo seria como aquela confiança e parceria entre os dois. Não deixaria que nenhum filho tivesse o peso de guardar segredos. Ele mesmo tomaria a iniciativa de eliminar segredos e manteria a confiança de seus queridos. Teriam que aprender a dividir as dificuldades da família com coragem e solidariedade. Aprenderiam a distingir privacidade, respeitariam a individualidade e exercitariam a tolerância para uma vida de amor e amizade.

Enquanto assim divagava na sua filosofia vespertina, ia cuidando do jantar. Sopa de caldo de galinha com macarrãozinho. Todos gostavam disso.

Naqueles últimos tempos o ritmo doméstico se repetia de modo simples e previsível, mas nem por isso era enfadonho ou tedioso. Na verdade adorava essa vidinha. Só se daria conta disso muito tempo mais tarde.

O pai adorava a paz daquela casa e enquanto os dois ficam no banheiro, ele cuidava do seu terceiro turno.

Pois é, era assim naqueles tempos: os dois pequenos iam juntos para o banheiro do apartamento e ficavam tagarelando sem parar por um longo tempo, até quando solemente gritavam

- Pai, já acabeeeei... aaacaabeeeeiiiii...

E lá ia ele.

Depois, jantavam e iam para a cama.

Teria mais no dia seguinte.